PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3
Mas agora sim minha vida mudará, pois escolhi ser feliz! Poderei emagrecer 15 quilos em 15 dias (ou quem sabe 30 em 30!). Adeus barriga! Meu cabelo voltará a crescer e ganharei milhões de dólares até o amanhecer. Facilmente conquistarei 1000 mulheres para esfolar meu futuro pênis aumentado… “-Vingança!”, e dedicarei ao meu pobre pai executivo que faliu a empresa e fugiu para um monastério em busca da paz interior e da proteção contra os credores.“- ARRASTAR-TE-ÁS AOS MEUS PÉS!”. Vaca. Aprenderei a controlar o stress e a falar em público. Exercerei tamanha influência que meus ditos distribuirão amor aos fracos por os brados de anunciação dessa nova era.
…nada ainda na caixa de correios…
Sonho com meu dia – de noite infindável – sem tempo para tantos convites sociais e amigos verdadeiros, esportes radicais e saladas de rúcula com agrião. Redenção! minutos de sabedoria por uma vida sem limites. Cada vez mais tenho certeza: serei insubstituível, compreensivo com o ódio e paciente com a ignorância. Despertarei finalmente a omni consciência com metáforas de dias de sol iluminando conversas com animais e divindades.
“-Puta que o pariu!”
O cachorro latiu.
Acho que são os Correios.
10 livros de auto-ajuda por 99,99.
Uma pechincha por uma vida de vitórias.
“- Que bom!”
Vou comer esse resto de macarrão.
Iniciar finalmente a leitura.
“- Um queijo?”
Quem mexeu no meu jeito?
Será que meu pênis já aumentou?
Tá, vou começar…
Onde estão meus óculos?
“- QUE MERDA!”
Comecei com a perna esquerda.
Esse bombom de chocolate é uma delícia.
“- MILAGRE!”
Acho… pareceu.
Já me sinto um novo homem.
“- Que fome.”
Onde está a balança?
ah! Vou ligar agora mesmo para a Bianca.
Lição 1: “Seja você mesmo.”.
(…)
Fudeu.
Naquele dia de sol azul e calor de primavera Raul acordou cantando: “delelin delelin, quero-te pra mim… delilin delelin”.
Ah! Adélia, Adélia. Moça da classe média lageana, de olhar fundo, sorriso difícil, magrinha que parecia doente, é, realmente, ela não costumava chamar atenção na rua. Ou talvez chamasse passando em frente à construcao do novo centro comercial do bairro utilizando seu shortinho jeans azul piscina e salto plataforma. Aí sim! recebia assovios e cantadas de podres pedreiros em seus chinelos de dedo e rostos rotos e marcados pelo sol. Talvez sua mãe a achasse linda e o pai tivesse ciúmes. Mas Raul não enxergava ou não se importava e cantava chamando Adélia: “delelim, delelim, delelim, olha pra mim, não faz assim! Veja que eu te amo, para mim, delelim, delelim.”
- Haja paciência… E Raul nao parava mais. – POR FAVOR ADÉLIA! Faça esse bem aos meus ouvidos afinados! Beija o Raul, dá pro Raul, toca o Raul.
E foi tanta a cantoria que um dia Raul não mais sorria, nao mais dançava, nem taopouco cantava. Tinham lhe dito que ela estava enamorada de outro…
E por mais que eu tentava convencê-lo do contrario ele insistia: “mesmo que para você não, delelin delelin delelin da, realmente linda pra mim”.
…mais aquele dia. Sem o sol, sem companhia, o dia só queria de mim a audácia que levasse ao deslize, a mentira que confessasse meus delírios e o ódio disfarçado em um sorriso brilhante. Incrível como eu fazia isso tão bem, o sorriso que não era forçado ou pintado, só era sarcástico em sua timidez e consciente de sua capacidade de persuadir.
E de tanto querer testá-lo novamente quando cheguei, foi que pus-me a olhar fixamente para um policial que organizava o trânsito na esquina do colégio de baixo. Olhei-o tão fixamente que ele não demorou para notar o meu ódio ameaçador, talvez sádico mas sim deveras homicida. Sua surpresa denunciou o seu medo e incompetência frente à segurança das crianças que atravessavam a rua na faixa de pedestres meio apagada, e isso deixou-me mais curioso para sorrir.
E no movimento que ele fez ao olhar para o lado e voltar a olhar, foi que eu já estava sorrindo de braços abertos com a desinibição de um velho sonhando com seu falo nova e quimicamente ereto comendo policiais à luz do dia, atrás do arbusto da praça.
Acho que ele notou meu tesão abusado e passou um rádio para o colega mais próximo, dando o local e a descrição do sorriso de um louco. Mas é claro: não ouvi sobre o seu temor frente ao ódio homicida e nem sobre a sua repulsa frente ao desejo do sexo proibido. “Como ele é pobre em sua vida.”, eu pensei. Ainda, vi no seu futuro um apito eterno para carros importados com madames, seus peitos de silicone, suas caras repuxadas e deixando suas crias mimadas em frente à porta do colégio particular.
Afinal, antes de chegar o reforço policial eu dei as costas e pus-me a andar. Melhor deixá-lo em paz – não tenho paciência com idiotas com cacetetes e também hoje não é dia de ménage à trois.
E me levou para a casa dele, sem cuidado com o que estava fazendo. Nada excitante, nada para ver, nada a notar, não consegui fingir. Talvez a combinação dessa cortina desbotada com a mesa de madeira e vidro jateado. Seu mau gosto revelando-se naquela lembrança de Fortaleza sobre mesa ou talvez as duas tvs ligadas e os cabos do videogame espalhados pelo chão ou ainda o telefone perdido sob a pilha de papéis com anotações de anos atrás. Seriam números de telefones das antigas namoradas?
O tapete não deve ter sido lavado nos últimos anos e talvez devesse colocar um capacho para limpar os pés quando sujos de barro. O cheiro bolorento do sofá, possivelmente abrigando migalhas de comida como banquete para formigas, só era superado pelo que vinha do banheiro de porta entreaberta e tapete enrugado. Também não consegui não notar a louça no escorredor brilhando a óleo e que talvez todos os talheres da casa estivessem no escorredor. Aliás, ele não devia ter aberto a geladeira para buscar água na pet reciclada de gasosa e oferecido o macarrão com salsichas de trasanteontem.
Só uma coisa sorria, no canto da sala o que eu queria e esperava, brilhante e ostentosa, suplicante e gostosa, sacana, implicante, uma garrafa de cana, ah! essa cana. Como as coisas tendem a ficar mais agradáveis com ela, abrindo a janela, as portas e as pernas finalmente! Entregar-me àquele amor latente.
Nasceu na beira do mar, ganhou um calção e, por horas a fio, pôs-se a nadar. Primaveras, verões e alguns invernos gelados não bastavam para a natação. Aperfeiçoou-se. Sabia nadar e era só o que fazia, naquele mar de veludo, olhando as gaivotas, imitando os peixes e tudo o que se mexia. Como as ondas ele aprendeu a nadar. E nunca haveria de esquecer.
Cresceu e ganhou um pé-de-pato, queria mergulhar. Na sua adolescência descobriu a arte de olhar debaixo da água, de prender a respiração, de interagir com aquele habitat tão diferente e surpreendente e voltar surfando na onda. E tudo que fazia agora era nadar e mergulhar, e nunca haveria de esquecer.
E só nadando e mergulhando desde então, aos 18 anos ganhou um arpão. E na primeira manhã, às 9 horas, aprendeu a matar. Foi o mais fácil de aprender.
Beatriz andava sempre rebolando, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. Não sei se andava fazendo pose ou se ela era perneta, mas a danada estava sempre remexendo.
Quebrava o quadril pulando a poça, subindo a escada da igreja, esperando o ônibus em frente ao trabalho. E se ia de saia rodada, ela era o samba que fazia a rapaziada feliz. Ah! Beatriz! Veja o que você fez… Quantos moleques na rua eu já não vi imitando seu balanço, com as mãozinhas na cintura e biquinho de francês.
Você que sempre deixou a porta aberta com seu rabo grande, derrubava a velhinha da banqueta do SUS e colocava o fio dental com o primeiro raio de sol. Só que naquele dia eu fui certeiro, você tem – sim – é bicho carpinteiro.
* já estava com saudades de escrever, e lá vai o jabá de quem me inspirou: meumundonina.blogspot.com
Naquele dia, como usual, Ana acorda preguiçosa em sua cama “kingsize”, calça suas plataformas e caminha demoradamente até o banheiro do seu duplex. O ar seco e calmo que entrava pela janela semi-aberta daquela manhã de primavera inspirava uma sensação de inferioridade a mais -como se ela precisasse de ar seco para isso…
Era a mais nova de nova de 4 filhas e, desde pequena, sonhava em ser aviadora, andar de quepe e tayer, com estrelas no paletó e salto alto de grife. Seu pai, coitado, nunca soube o que era andar de avião pois passava os dias entre pilhas de tecidos de sua alfaiataria. E Ana ficava lá cutucando, queria sempre o melhor vestido, o tecido mais brilhante, a mais cara confecção, o estilista mais famoso. “Deus me livre!” usar listas horizontais na estampa do vestido. Lera também que decotes em V deixavam a pessoa mais alta, assim como “looks” de uma cor só davam ilusão de altura. Era mesmo um saco! Não se contentava com pouco, não se contentava com menos.
Aos nove anos já não atendida se a chamassem de Aninha. Aos doze seu discurso era ensaiado: queria crescer, subir na vida, ter do bom e do melhor para morar, para comer, para dirigir, para vestir, para viver, para zoar. Acho que aí sua mania de grandeza já era maior que ela mesma, e crescia exponencialmente.
Aos quinze sonhava com o príncipe encantado, em um cavalo enorme, com um pau enorme, levando-a para um castelo a caminho do céu. Aos dezoito já se contentava somente com um carrão e o príncipe encantado não precisava usar calça colada de cetim – mas quanto ao tamanho do castelo (e do pau) não mudara de idéia.
E de insistir não é que achou? Naquele dia de sol se casou para o espanto da sociedade conservadora. Uma cerimônia requintada e pomposa, com cascatas de camarão e veuve clicquot, Ana e seu gatão. Da limousine saiu no colo do seu marido e entrou no ninho de amor. “Mas que casa enorme!” – “Droga”. Ana não alcançava na pia, custava que custava a sentar na poltrona, a abrir a sacada, a subir na cama, a usar a privada. Saiu de seu mundinho particular e se viu como João (o do pé de feijão) na casa do gigante, e ela estava longe de ser uma harpa mágica. Sua vergonha crescia dia a dia até que sumiu naquela tarde de ar seco e calmo. Alguns me disseram sem um senão: “Ana morreu!”, mas como nunca vi enterro de anão, não sei que fim se deu.
…a história se repete em uma praia latina.

De longe consegui captar aquele momento. Aquele flerte sutil e envergonhado, o início do fato.
Era um homem simples, aparentando 25 anos, cabelos emaranhados mas recém-cortados, que olhava fixamente a morena de vestido branco lá embaixo. Aliás, nada mal aquele vestidinho… minha primeira impressão é que ela deve ter tomado banho na última semana, com poucos cabelos entre os braços – e isso significa que sua xoxota não será tão peluda assim, com um olhar profundo e triste, aparentando uns 17 anos,… no máximo. Queria eu estar ali, queria eu de volta meus 25 anos.
Mas é claro que, para uma moça como ela, todo o conquistador que não se parece com o James Dean não merece mais que um olhar cruzado da primeira vez. Eu observava tudo rindo baixinho pois, dessa vez, poderia ter sido eu o rejeitado.
Logo quando pensei em desviar a atenção, eis emergente aquela coragem juvenil quando o rapaz, decidido, pôs-se a se aproximar. Talvez estivesse pensando em arriscar ao menos uma boa conversa ou talvez um esfregão gostoso. A multidão se acotovelava a sua frente, em torno daquele palco que ostentava uma fogueira central – a popular festa dominical. Era lá que estava a morena, ao lado do palco, e bem que poderia ter sido eu a ter essa coragem de chegar.
Abri meu olhar e estava formada a cena: vendedores de frutas que disputavam inutilmente a atenção do povo – e que povo feio – muito mais interessado nos vendedores de vinho doce, duas crianças se beliscavam como irmãos ao lado de uma senhora de azul, vermelha de vergonha, que ralhava com eles, e aquele homem de máscara no canto do palco que parecia ter saído de teatros pornográficos de segunda categoria, com o peito a mostra, as costas peludas, correntes enferrujadas na mão e um olhar que tentava mentir estar com sede de sangue. O tédio predominou por um minuto e eu quase perdi meu casal.
A morena estava agora olhando para trás, talvez arrependida de não ter respondido ao flerte, ou talvez, e dessa vez, não se faria tão difícil assim. Mas não achou o pretendido que eu duvido que ela se lembrava como era. Um bêbado apaixonado (e isso é quase um pleonasmo), encantado, esperançoso e convencido (!!), enche-lhe um copo de vinho… uma gota atrevida cai sobre o seu vestido branco. O vendedor de tomates não consegue desviar os olhos daquela gota e coloca a cesta na frente da calça. Mas ela só olha o palco agora pois o homem mascarado fita-a sem expressão. O povo aperta mais e começa a cochichar.
O rapaz apressou o passo e agora estava a alguns metros da morena, se aproximando. Senti seu tesão nos olhos. Ele respira profundamente, abre o cordão de suas calças, aproveita mais um movimento da multidão e abraça a pretendida já com o membro duro. A morena, surpresa, arregala os olhos. A multidão, aplaudindo, ri da fogueira que acabara de ser acessa. A senhora de azul, atenta e safada, pede um tomate. A moça pensa: “antes aqui trepando do que na fogueira queimando com mamãe” e relaxa para o orgasmo total. Eu vendo tudo isso, a multidão aplaude de pé, a bruxa morre queimada, o algoz chora de lado, a morena sorri arrepiada e o rapaz goza extasiado. Bem que poderia ter sido eu o gozador.
Michel não podia sair de casa. Não podia apanhar sol, andar descalço, tomar banho de mar, tomar um pouco de ar. Dizia ter uma doença, que ora era frescura, ora era injúria, ora era loucura. Os vizinhos comentavam nos jornais e os jornalistas aumentavam para não ficar atrás. Chamavam a tevê, o rádio e os blogueiros, que de tanto chamar, não carecia mais. E vinha a polícia, a igreja e o governo, uns não ligavam, e outros fingiam, o importante era saber do enfermo, coitado ou culpado, que seja.
Se tinha um furúnculo no pé, ou uma dor de cabeça, um padrasto maluco ou um brinquedo legal. Se tinha uma mulher que não amava, ou uma criança levada, se tinha um pavor do escuro, ou de porta fechada. Não importava: ele tinha que ter.
Um dia, só de raiva, dançou e dançou sem parar, por dias. E de tanto dançar, definhou e morreu.
No seu enterro, os vizinhos chamaram jornais, vieram a tevê, o rádio e os blogueiros, a polícia, a igreja e o governo, aliás, nada como um dia depois do outro.
Homenagem a Michael Jackson
Soninha já era famosa por não conseguir ficar acordada. Por mais que tentasse e se esforçasse, lá estava ela de olhos baixos, avermelhados e sonambulentos. Parecia ter sido hipnotizada pela TV na sua infância, permanescendo até os dias de hoje. Constrangedor era no banco da praça e na fila do banco, domingo na missa e com a pedra de bingo na mão (sua tia nunca a perdoou por ter perdido a cafeteira na quermesse).
E naquele dia ninguém conseguia acordá-la.
Soninha foi encontrada deitada, nua em sua cama, na cobertura de seu apartamento na Avenida Paulista. O celular avisando as dezenas de ligações não atendidas, o despertador já sem corda, o sol batendo sem prosa na janela do banheiro, e ela nem se mexia. Seu vulto sereno atrás de um belo mosquiteiro branco, que mais esquentava do que protegia, era um corpo deitado em caros lençóis de seda e travesseiro baixo, e lá estava, com as mãos sobre o ventre, um olhar sereno como se descansasse na morte que aliviara sua vida estressada, enquanto respirava lentamente. Ai que bom que ela respirava!
Talvez fora picada pela tse tse pois nem o rush da Paulista às oito da manhã, nem o sino da catedral badalando na igreja – que hoje só serve pra isso – nem o apito do grevista pelado e pintado em amarelo correndo da polícia, nem o palavrão do motorista parado no cruzamento conseguia incomodá-la, nada a acordava. Soninha estava em seu sono profundo.
A única pista que eu tinha era aquela estranha maçã, mordida, ao lado da cama…
…bem que Soninha poderia ter feito o buço na noite anterior.
من اليمين إلى اليسار
ثمة في قصيدة النثر ، هو مظهر من مظاهر الاشتراكية.
provérbio árabe do BonDeLaire

Lá vinha Clara, a minha negrinha predileta. Canela fina, carinha de safada e bunda arrebitada. Coisa mais linda! Dançava até com assovios, e como os ouvia, viu, viu. Cabelo emaranhado, shortinho azul, regata branca sem soutien, lá vinha Clara torcendo pescoços e causando de brigas conjugais.
Naquele dia, o mais sério soltou uma cantada infame pra Clara, o mais triste sorriu para Clara, o mais convencido curvou-se para Clara, o mais imbecil recitara Drummond e o mais feio passara baton. Naquele dia o mais sujo tomara banho, e passara perfume só para Clara, o mais rico prometeu uma boa ação, e o mais pobre financiou uma mansão. Naquele dia o mais tolo pregou uma peça, o mais religioso falou palavrão, e eu, como também não me contive, tive uma ereção.
Ah! Clara, atravessou distraída a rua, dançando com a buzinada do Pegeout, mas infelicidade, uma Mercedes a matou. E que Mercedes! Branco como a neve, esportivo como um cânion. O mais simples invejou aquele carro, o mais jovem disse que ia ter uma quando crescesse, e o mais baixo cresceria um montão, e eu, como não me contive, tive outra ereção.
Teresinha tinha tanto tempo na sua vida que parava a toda hora para se preocupar,… com a vida dos outros. Quem me dera ter esse tempo, mesmo que só para pensar.
Ela era amiga, a melhor amiga, e de todos. Desdobrava-se, cancelava seus próprios compromissos, passava noites em claro só para ouvir lamúrias de seus conhecidos. Que alma boa: filtrava os maus agouros, negava as más línguas, revirava a má intenção e ia contra qualquer maré para protege-los.
Isso é certo não sei, mas é claro que infindáveis vezes se arrependera, apunhalada pelas costas ou pela frente. E ai que coceira na orelha! Estavam falando dela, é claro.
E chegou sua vez de estar mal. Perdera o emprego por faltar demais, e o marido e a guarda dos filhos por uma maternidade despreocupada. E agora estava sozinha. Eu te falei Teresinha!
Dos seus amigos, metade a negou por 3 vezes naquela noite, outros tantos a conheciam mas diziam não serem íntimos o suficiente e alguns outros não tinham tempo para ajudá-la, pois haviam marcado compromissos. Tinham até aqueles que nunca gostaram dela mesmo, e para eles Terezinha nem ligara, mas um deles, ah, o Ivan, virara diretor executivo da Sul América. Perfeito! Vá pedir ajuda!
Mas infelizmente Ivan não pode ajudar. Ele não vende seguros para desempregados.
Ester falava tudo em sua vida para todos em sua volta. Não conhecia guardar segredos, não aguentava ficar calada, não conseguia não ser sincera. Ester externalizava tudo que ouvia, sentia ou percebia.
Ester contava tudo em sua volta para todos em sua vida. Claustrofóbica mental, não suportava a idéia de ficar presa em seu próprio mundo sagrado, e abria os portões para toda a energia que pudesse trocar ou doar.
Mas de um resfriado danado, e quando perdeu a voz, de tanto tremer, pôs-se a escrever. Palavrões e vreados rasgavam seu bloco de notas como se queimando de ódio. Até quebrar os dedos.
E começou a piscar os olhos em morse, balançando seus ombros. Ninguém entendia. E mesmo cansada, batia com a cabeça no tambor, chocalhos no joelho, cornetas nos pés, mas ninguém entendia. Escuridão. Pânico. – Ester, histérica Ester, acorda mulher!
Mas eis que coisa, uma gaita em sua boca! e Ester soprou um sopro de vida.
Ahh… uma gaita. Ester, Ester, agora eu entendo o seu blues.
Quando nasci descobri que o céu é azul, e que existe céu e que o seio da minha mãe era fonte de alimento e amor. Descobri que a música é mais linda quando se entende um pouco de música, que a arte como um todo é mais linda quanto mais entendemos dela. E que a cerveja não é tão amarga quanto da primeira vez que tomei, e ainda faz o céu mais azul e a música mais bela. Que a doçura é mais doce do que quando criança eu provei e que ela ainda vai me matar.
Também descobri que um sonho deve ser perseguido, e cansei de escutar que é 10% de sorte, por vezes não merecida, e 90% de suor, e melhor que seja o suor dos outros. E que preciso de 4 coisas para ser feliz de corpo e alma: Ritmo, Equilíbrio, Reflexo e Fé.
Depois descobri a pornografia na Web (…)
* participação, mais que especial, deBarrose





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