Aninha, não: Anão!

Poema em Post 1 comentário »
Naquele dia, como usual, Ana acorda preguiçosa na sua cama kingsize, calça suas plataformas e caminha demoradamente até o banheiro do seu duplex. O ar seco e calmo que entrava pela janela semi-aberta daquela manhã de primavera inspirava uma sensação de inferioridade a mais, como se ela precisasse de ar seco para isso…
Era a mais nova de nova de 4 filhas e, desde pequena, sonhava em ser aviadora, andar de quepe e tayer, com estrelas no paletó e salto alto de grife. Seu pai, coitado, nunca soube o que era andar de avião, pois passava os dias entre pilhas de tecidos de sua alfaiataria. E Ana ficava lá cutucando, queria sempre o melhor vestido, o tecido mais brilhante, a mais cara confecção, o estilista mais famoso. “Deus me livre!” usar listas horizontais na estampa do vestido. Lera que decotes em V deixavam a pessoa mais alta, assim como “looks” de uma cor só alongavam as pessoas. Era mesmo um saco! Não se contentava com pouco, não se contentava com menos.
Já aos doze anos seu discurso era ensaiado: queria crescer, subir na vida, ter do bom e do melhor para morar, para comer, para dirigir, para vestir, para viver, para zoar. Acho que aí sua mania de grandeza já era maior que ela mesma, e crescia exponencialmente.
Aos quinze sonhava com o príncipe encantado, em um cavalo enorme, com um pau enorme, levando-a para um castelo ainda maior, a caminho do céu.
Aos dezoito já se contentava somente com um carrão e o príncipe encantado não precisava usar calça colada de cetim – mas quanto ao tamanho do castelo (e do pau) não mudara de idéia.
Surpresa! E não é que achou? Naquele dia de sol se casou para o espanto da sociedade conservadora. Uma cerimônia requintada e pomposa, com cascatas de camarão e veuve clicquot. Da limousine para o colo do seu marido, entrou no ninho de amor. “Mas que casa enorme!”. “Droga”. Ana não alcançava na pia, custava que custava a sentar na poltrona, a abrir a sacada, a subir na cama, a usar a privada. Saiu de seu mundinho particular e se viu como João (o do pé de feijão) na casa do gigante, e ela estava longe de ser uma harpa mágica. Sua vergonha crescia dia a dia até que sumiu naquela tarde de ar seco e calmo. Alguns me disseram sem um senão: “Ana morreu!”, mas como nunca vi enterro de anão, não sei que fim se deu.

Naquele dia, como usual, Ana acorda preguiçosa em sua cama “kingsize”, calça suas plataformas e caminha demoradamente até o banheiro do seu duplex. O ar seco e calmo que entrava pela janela semi-aberta daquela manhã de primavera inspirava uma sensação de inferioridade a mais -como se ela precisasse de ar seco para isso…

Era a mais nova de nova de 4 filhas e, desde pequena, sonhava em ser aviadora, andar de quepe e tayer, com estrelas no paletó e salto alto de grife. Seu pai, coitado, nunca soube o que era andar de avião pois passava os dias entre pilhas de tecidos de sua alfaiataria. E Ana ficava lá cutucando, queria sempre o melhor vestido, o tecido mais brilhante, a mais cara confecção, o estilista mais famoso. “Deus me livre!” usar listas horizontais na estampa do vestido. Lera também que decotes em V deixavam a pessoa mais alta, assim como “looks” de uma cor só davam ilusão de altura. Era mesmo um saco! Não se contentava com pouco, não se contentava com menos.

Aos nove anos já não atendida se a chamassem de Aninha. Aos doze seu discurso era ensaiado: queria crescer, subir na vida, ter do bom e do melhor para morar, para comer, para dirigir, para vestir, para viver, para zoar. Acho que aí sua mania de grandeza já era maior que ela mesma, e crescia exponencialmente.

Aos quinze sonhava com o príncipe encantado, em um cavalo enorme, com um pau enorme, levando-a para um castelo a caminho do céu. Aos dezoito já se contentava somente com um carrão e o príncipe encantado não precisava usar calça colada de cetim – mas quanto ao tamanho do castelo (e do pau) não mudara de idéia.

E de insistir não é que achou? Naquele dia de sol se casou para o espanto da sociedade conservadora. Uma cerimônia requintada e pomposa, com cascatas de camarão e veuve clicquot, Ana e seu gatão. Da limousine saiu no colo do seu marido e entrou no ninho de amor. “Mas que casa enorme!” – “Droga”. Ana não alcançava na pia, custava que custava a sentar na poltrona, a abrir a sacada, a subir na cama, a usar a privada. Saiu de seu mundinho particular e se viu como João (o do pé de feijão) na casa do gigante, e ela estava longe de ser uma harpa mágica. Sua vergonha crescia dia a dia até que sumiu naquela tarde de ar seco e calmo. Alguns me disseram sem um senão: “Ana morreu!”, mas como nunca vi enterro de anão, não sei que fim se deu.

1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (Votos: 3, média: 4.67 )
Loading ... Loading ...

Enquando isso, no Século XXI

Fotos de Bondelaire, Poema em Imagem Sem comentários »

…a história se repete em uma praia latina.

bardo moderno

1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (Votos: 1, média: 5.00 )
Loading ... Loading ...

O Bardo Voyer

Poema em Post 1 comentário »
Era um homem simples, aparentando 25 anos, cabelos emaranhados mas recém-cortados, que olhava fixamente a morena de vestido branco lá embaixo. Aliás, nada mal aquele vestidinho… minha primeira impressão é que ela deve ter tomado banho na última semana, com poucos cabelos entre os braços – e isso significa que sua xoxota não será tão peluda assim, com um olhar profundo e triste, aparentando uns 17 anos,… no máximo. Queria eu ter 25 anos.
Mas é claro que, para uma moça como ela, todo o conquistador que não se parece com o James Dean não merece mais que um olhar cruzado da primeira vez. Eu observava tudo rindo baixinho. Poderia ter sido eu o rejeitado.
Logo quando pensei em desviar a atenção, eis aquela coragem de jovem aventureiro e o rapaz decidido pôs-se a chegar mais perto. Talvez estivesse pensando em arriscar ao menos um esfregão enquanto a multidão se acotovelava a sua frente, em torno daquele palco que ostentava uma fogueira central na popular festa dominical. Era lá que estava a morena, e bem que poderia ter sido eu a ter essa coragem.
Abri meu olhar e estava formada a cena: vendedores de frutas que disputavam inutilmente a atenção do povo – e que povo feito – muito mais interessado nos vendedores de vinho doce, duas crianças se acotovelavam como irmãos ao lado de uma senhora, vermelha de vergonha, que ralhava com eles, e aquele homem de máscara no canto do palco: parecia ter saído de teatros pornográficos de segunda categoria, com o peito a mostra, as costas peludas, correntes enferrujadas na mão e um olhar que tentava mentir estar com sede de sangue. O tédio predominou por um minuto e eu quase perdi meu casal.
A morena estava olhando para trás, talvez arrependida de não ter respondido ao flerte, ou talvez, e dessa vez, não se faria tão difícil assim – mas não achou o atrevido rapaz, que andava contornando o palco. Um bêbado apaixonado (e isso é quase um pleonasmo), encantado, esperançoso e convencido (!!), enche-lhe um copo de vinho, e uma gota atrevida cai sobre o seu vestido. O vendedor de tomates não consegue desviar os olhos daquela gota. Mas ela só olha o palco agora pois o homem mascarado fita-a quase sem expressão. O povo aperta mais e começa a cochichar.
O rapaz apressou o passo e agora estava a alguns metros da morena, se aproximando. Senti seu tesão nos olhos. Ele respira profundamente, abre o cordão de suas calças, aproveita mais um movimento da multidão e abraça a pretendida já com o membro duro. A morena, surpresa, arregala os olhos. A multidão, aplaudindo, ri da fogueira que foi acessa. A moça pensa: “antes trepando do que na fogueira com mamãe” e relaxa para o orgasmo total. A multidão aplaude, a bruxa morre, o algoz chora, a morena sorri e o rapaz goza. Poderia ter sido eu o gozador.
Ai como eu gosto do século XIV. Todo o dia é dia de trova.

De longe consegui captar aquele momento. Aquele flerte sutil e envergonhado, o início do fato.

Era um homem simples, aparentando 25 anos, cabelos emaranhados mas recém-cortados, que olhava fixamente a morena de vestido branco lá embaixo. Aliás, nada mal aquele vestidinho… minha primeira impressão é que ela deve ter tomado banho na última semana, com poucos cabelos entre os braços – e isso significa que sua xoxota não será tão peluda assim, com um olhar profundo e triste, aparentando uns 17 anos,… no máximo. Queria eu estar ali, queria eu de volta meus 25 anos.

Mas é claro que, para uma moça como ela, todo o conquistador que não se parece com o James Dean não merece mais que um olhar cruzado da primeira vez. Eu observava tudo rindo baixinho pois, dessa vez, poderia ter sido eu o rejeitado.

Logo quando pensei em desviar a atenção, eis emergente aquela coragem juvenil quando o rapaz, decidido, pôs-se a se aproximar. Talvez estivesse pensando em arriscar ao menos uma boa conversa ou talvez um esfregão gostoso. A multidão se acotovelava a sua frente, em torno daquele palco que ostentava uma fogueira central – a popular festa dominical. Era lá que estava a morena, ao lado do palco, e bem que poderia ter sido eu a ter essa coragem de chegar.

Abri meu olhar e estava formada a cena: vendedores de frutas que disputavam inutilmente a atenção do povo – e que povo feio – muito mais interessado nos vendedores de vinho doce, duas crianças se beliscavam como irmãos ao lado de uma senhora de azul, vermelha de vergonha, que ralhava com eles, e aquele homem de máscara no canto do palco que parecia ter saído de teatros pornográficos de segunda categoria, com o peito a mostra, as costas peludas, correntes enferrujadas na mão e um olhar que tentava mentir estar com sede de sangue. O tédio predominou por um minuto e eu quase perdi meu casal.

A morena estava agora olhando para trás, talvez arrependida de não ter respondido ao flerte, ou talvez, e dessa vez, não se faria tão difícil assim. Mas não achou o pretendido que eu duvido que ela se lembrava como era. Um bêbado apaixonado (e isso é quase um pleonasmo), encantado, esperançoso e convencido (!!), enche-lhe um copo de vinho… uma gota atrevida cai sobre o seu vestido branco. O vendedor de tomates não consegue desviar os olhos daquela gota e coloca a cesta na frente da calça. Mas ela só olha o palco agora pois o homem mascarado fita-a sem expressão. O povo aperta mais e começa a cochichar.

O rapaz apressou o passo e agora estava a alguns metros da morena, se aproximando. Senti seu tesão nos olhos. Ele respira profundamente, abre o cordão de suas calças, aproveita mais um movimento da multidão e abraça a pretendida já com o membro duro. A morena, surpresa, arregala os olhos. A multidão, aplaudindo, ri da fogueira que acabara de ser acessa. A senhora de azul, atenta e safada, pede um tomate. A moça pensa: “antes aqui trepando do que na fogueira queimando com mamãe” e relaxa para o orgasmo total. Eu vendo tudo isso, a multidão aplaude de pé, a bruxa morre queimada, o algoz chora de lado, a morena sorri arrepiada e o rapaz goza extasiado. Bem que poderia ter sido eu o gozador.

1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (Votos: 2, média: 4.50 )
Loading ... Loading ...
Designed by NattyWP Wordpress Themes.
Images by desEXign.