Soninha já era famosa por não conseguir ficar acordada. Por mais que tentasse e se esforçasse, lá estava ela de olhos baixos, avermelhados e sonambulentos. Parecia ter sido hipnotizada pela TV na sua infância, permanescendo até os dias de hoje. Constrangedor era no banco da praça e na fila do banco, domingo na missa e com a pedra de bingo na mão (sua tia nunca a perdoou por ter perdido a cafeteira na quermesse).
E naquele dia ninguém conseguia acordá-la.
Soninha foi encontrada deitada, nua em sua cama, na cobertura de seu apartamento na Avenida Paulista. O celular avisando as dezenas de ligações não atendidas, o despertador já sem corda, o sol batendo sem prosa na janela do banheiro, e ela nem se mexia. Seu vulto sereno atrás de um belo mosquiteiro branco, que mais esquentava do que protegia, era um corpo deitado em caros lençóis de seda e travesseiro baixo, e lá estava, com as mãos sobre o ventre, um olhar sereno como se descansasse na morte que aliviara sua vida estressada, enquanto respirava lentamente. Ai que bom que ela respirava!
Talvez fora picada pela tse tse pois nem o rush da Paulista às oito da manhã, nem o sino da catedral badalando na igreja – que hoje só serve pra isso – nem o apito do grevista pelado e pintado em amarelo correndo da polícia, nem o palavrão do motorista parado no cruzamento conseguia incomodá-la, nada a acordava. Soninha estava em seu sono profundo.
A única pista que eu tinha era aquela estranha maçã, mordida, ao lado da cama…
…bem que Soninha poderia ter feito o buço na noite anterior.
March 27th, 2009 at 15:58
Uma chuva de imagens! AMEI este post!
April 17th, 2009 at 01:40
Hahahaha, muy bueno!
May 18th, 2009 at 13:59
Reli. Este é bom demais.
May 18th, 2009 at 14:25
É bon de laire…