Soninha, tá na hora.

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Soninha já era famosa por não conseguir ficar acordada. Por mais que tentasse e se esforçasse, lá estava ela de olhos baixos, avermelhados e sonambulentos. Parecia ter sido hipnotizada pela TV na sua infância, permanescendo até os dias de hoje. Constrangedor era no banco da praça e na fila do banco, domingo na missa e com a pedra de bingo na mão (sua tia nunca a perdoou por ter perdido a cafeteira na quermesse). 

E naquele dia ninguém conseguia acordá-la. 

Soninha foi encontrada deitada, nua em sua cama, na cobertura de seu apartamento na Avenida Paulista. O celular avisando as dezenas de ligações não atendidas, o despertador já sem corda, o sol batendo sem prosa na janela do banheiro, e ela nem se mexia. Seu vulto sereno atrás de um belo mosquiteiro branco, que mais esquentava do que protegia, era um corpo deitado em caros lençóis de seda e travesseiro baixo, e lá estava, com as mãos sobre o ventre, um olhar sereno como se descansasse na morte que aliviara sua vida estressada, enquanto respirava lentamente. Ai que bom que ela respirava!

Talvez fora picada pela tse tse pois nem o rush da Paulista às oito da manhã, nem o sino da catedral badalando na igreja – que hoje só serve pra isso – nem o apito do grevista pelado e pintado em amarelo correndo da polícia, nem o palavrão do motorista parado no cruzamento conseguia incomodá-la, nada a acordava. Soninha estava em seu sono profundo.

A única pista que eu tinha era aquela estranha maçã, mordida, ao lado da cama…

…bem que Soninha poderia ter feito o buço na noite anterior.




4 Responses to “Soninha, tá na hora.”

  1. Nina Atenção:

    Uma chuva de imagens! AMEI este post!

  2. Marina Speranza Atenção:

    Hahahaha, muy bueno!

  3. Nina Atenção:

    Reli. Este é bom demais.

  4. BonDeLaire Atenção:

    É bon de laire…

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