Experimento

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PARTE 1

Ontem decidi que iria iniciar o experimento. Iniciei.
Vestir-me maltrapilho e estirar-me ao chão, como desacordado, em uma rua de não tanto movimento no centro da cidade. Complementar meus estudos sociológicos com uma experiência. É lógico!
Vestido em mal trapos, sujo de carvão e perfume de cachaça. Imóvel!, como deveria ser, de barriga para baixo e uma perna esticada.
A primeira pessoa a passar foi uma dona, daquelas ditas desnorteantes, que olhou-me de canto de olho e reclamou algo para só ela escutar. Um cachorro sarnendo dobrou a esquina e cheirou meu nariz, balançou o seu rabo e esperou reação. Decepção. Foi embora a buscar, sem aparente razão, incomodar outrem ou um real cidadão. Um velho bonachão de chapéu atravessou a rua para não passar por perto de mim e flertou com a madame que tinha nariz de anão de jardim, e assim, assim, um após o outro passou pensando em seus umbigos e rabos, bebendo cramberries, manejando tablets e blackberries.
Pois sim! Eu consegui provar! Em 5 horas virei paisagem da cidade grande.
Mas não contente insisti. O sol castigava minhas costas enquanto passava um garoto apontando um dedo para mim antes de sua mãe lhe puxar. Uma perua de cabelo roxo nem virou a cara, mas prendeu a respiração, eu vi! perto do o casal que procurava uma geladeira para casar e do pombo que procurava uma estátua para cagar. Um homem que andava mancando suspirou, o dono da mercearia disse que a chamaria a polícia, mas já estava tarde e ele fechou.
E foi caindo a noite e eu estava lá. Pensei: “vou para casa tomar um banho, descansar e pensar nos planos de amanhã”.
Fim da parte 1



PARTE 2

E é agora, e cá estou – ainda. Raiada a noite e eu deitado na rua, querendo ir para a casa mas sem conseguir me levantar. Não consigo me mover nem ao menos falar! Minhas mãos inchadas, minhas costas dormentes, cansadas, meu rosto machucado do contato com a calçada.
Um mendigo noturno chega perto, olha para mim e coloca um gole do Velho Barreiro na minha boca. Doce. Sussurra que não divide ponto de esmola e vai embora. Duas prostitutas gordas  reviram meu bolso em busca de trocados e ouço um jovem falando com a esposa: “certo que por causa de mulher…”.
É noite adentro e o sereno alivia minha nuca queimada do sol. Mas ouça! Ouço uma ambulância dobra a esquina. Finalmente alguém vem recolher-me.
Ah! paramédicos. Um olha para o outro, acende um cigarro, reclama do trabalho e coloca-me na maca. A ambulância sacode-se em direção do hospital central.
Fim da parte 2

PARTE 3

Ainda estou aqui no hospital, em uma maca no corredor. Não tenho documentos, não consigo falar, ainda não me mexo. Eis que bons 30 anos de casa chegam com Bete, a enfermeira gorda de baton vermelho e silicone nos peitos: “Quem é esse trapo? Alguém sabe dele?”. Bete é um amor, mas ninguém sabe de mim.
O dia raiou e eu no corredor. Espero que não faltem macas no hospital e que minha sonegação de impostos não faça falta afinal. Um médico recém formado vem me ver. Abre meus olhos e coloca em palito de picolé em minha boca. “Quem é esse senhor?”.
“É o Zé.” – grita alguém do corredor. O Zé Ninguém…
Bete, Bete chegou. Chegou com sua seringa e ahhh eu consigo…!! “Ss..SOoU O Dou dOUTOR PONTES, PROFESSOR DE SOCIOLOGIA NA UNIVERSIDADE!”
“Muito prazer, eu sou Margaret Thatcher. Toma essa morfina e vai dormir um pouco”. Ahhh
O dia muda com as cores. “Deixa mais uma ampola disso pra mim…é para um novo experimento.”. Suplico no corredor.
Fim da parte 3





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